A esperança é preta e zumbe
O fim dos polinizadores: mais um passo rumo ao beleléu
Não sei se conseguiria voltar pra de onde vim, mas de vez em quando vou e trago mais um pedacinho de lá pra cá. Terras de Minas: já cheguei a trazer sacos de terra curtida sob uma mangueira velha no quintal, pra plantar coisas aqui. Tive até uma muda de jabuticaba que virou um bonsai mineiro, quieto e sábio num canto.
Dessa vez, foram umas mudinhas de maracujina que meu irmão do meio preparou pra mim justo na hora de pegar o carro. Eu já tinha admirado na casa dele aquela trepadeira com uma fruta linda, quem nem dá tempo de experimentar: os passarinhos avançam antes mesmo que a gente a perceba madura.
Deixei as mudinhas na muda, na sombra, e plantei na crescente seguinte. Seguiram o exemplo da lua, num estirão só, fase única: menos de dois meses depois, avançavam por um cordão que coloquei de suporte, rente ao muro. E, do nada olha lá: uma flor! Outra flor!
Enquanto as admirava, as duas, se foram: duraram menos de doze horas. Sem polinizadores, e em tão pouca quantidade, murcharam, sumiram. Mas os pés, agora embolados em uma torrente verde, nem aí: continuam seguindo o primeiro ramo, disparado lá na dianteira.
E as flores? Nada! Onde é que tô errando? Uma amiga sugeriu sujidades em volta dos pés: casca de ovo, de batata, nada! Seriam os caramujos, que destruíram de uma manhã pra outra os três pés de couve que temperavam nossos almoços. Sei lá: mas se estão abortando as flores, não estão abordando as folhas, que estão lá, de enfeite.
Mas nesta quinta quem eu vejo bisbilhotando os pés de maracujina? Imensa, tão preta que até brilha, a circular com um zumbido alto? Uma manganga! Voou pra lá, voou pra longe, deu um rasante pro meu lado e se foi. Deu flor, a maracujina, eu pensei, porque a manganga é uma das principais polinizadoras do maracujá.
Tem até uma história que um amigo me contou, de um amigo dele que cismou de produzir maracujá neste sertão paulista. E conseguia safras absurdas. O segrego? Que me cheira a mentira? Esse amigo do amigo pagava crianças para capturarem as mangangas (mangangás ou mamangavas por aqui), que faziam a festa nas flores dos maracujás dele.
Quando a (minha) manganga se foi, corri pros pés, levantando as folhas, um frenesi por flores. Hum hum: tinha não. Mas minha esperança de poder provar da fruta se abriu dentro de mim, de novo. Qualquer barulho longínquo de helicóptero corro lá pra fora. A cor da esperança é verde, dizem. Da minha não: é preta. E não vejo a hora de ela voltar e se lambuzar no pólen das flores de maracujina...
E o que estão fazendo flores e abelhas num site de livros? A esperança, verde ou preta, vale pra tudo. No fundo, o que eu queria mesmo era uma manganga capaz de polinizar gente do bem. Mas parece que a única abelha que anda polinizando gente por aí é a arapuá, coitada. Uma rola-bosta, como a gente a chamava quando criança.
Se é que é ela mesmo, rola-bosta virou influencer. Com zilhões e zilhões de k de seguidores.



