Uma garota voraz
Há 90 anos, num 4 de maio de 1936, também uma segunda, Edna estava desesperada. Tinha perdido a única cópia do manuscrito de um livro que estava finalizando, “Conversations at midnight”, que iria para a gráfica no mês seguinte. Ela e o marido tinham chegado à ilha de Sanibel, na Flórida, para passar as férias. Era final da tarde de sábado, deixaram a bagagem no hotel, foram catar conchas na praia, quando voltaram o prédio tinha pegado fogo. Lá se foi bagagem e, pior, o livro. Passado o trauma, com o tempo ela conseguiu reconstruir a quase totalidade dos poemas perdidos.
A azarada era Edna St. Vincent Millay, a primeira mulher a ganhar o Prêmio Pulitzer de Poesia, o Oscar do jornalismo criado em 1917 que homenageia 23 categorias, incluindo literatura. E não era algo incomum na rotina dela, acontecimento deste tipo. Do incêndio, eu digo. Apesar de que ela estava mais acostumada era a botar fogo em leitos alheios.
Sim, Edna gostava de meninos & meninas, e passou por seus braços quase metade das pessoas interessantes da New York dos anos 1930 (pelo menos um outro um quarto passou pelos braços do marido, Eugen, que não só entendia e apoiava a esposa como, solidário, dava seus pulinhos pelo outro lado).
Fora dos amassos, Millay também arrasava. Um livro seu, em pleno auge da Grande Depressão nos Estados Unidos, em que a maioria da população não tinha dinheiro nem pra comida, sua coletânea de sonetos, Fatal Interview, vendeu 35.000 exemplares. Nas duas primeiras semanas! Dividindo-se entre boêmia, amor livre, vida desregrada e rimas, ela esbanjava a capacidade de despertar fantasias sobre tal wild side.
A mulher era de um magnetismo pós-quântico. Ajudou milhares de pessoas a saírem dos armários, de opção sexual ou de preconceitos. Mas não era muito de dar a mão e sair passeando depois de arrombar a porta. O telefone ainda não era muito difundido, mas mesmo que houvesse iPhones ela não ligaria no dia seguinte: já estava em outra. Ou outro. Ou ambos.
Quem a conheceu de perto disse que ela se via ligada a um destino superior. Para Edna, aqueles que ela seduzia deviam se ver como “enobrecidos por terem sido amados e abandonados por ela”.
Pra não dizer que não conhece a poesia dela, uma degustaçãozinha:
Em breve te esquecerei, minha querida
(Soneto IV)
Em breve te esquecerei, minha querida
Então aproveita ao máximo este teu pequeno dia,
Teu pequeno mês, teu pequeno semestre
Antes que eu te esqueça, ou morra, ou me vá embora,
E nos separemos para sempre; daqui a pouco
Te esquecerei, como disse, mas agora,
Se me implorares com tua mentira mais encantadora
Te prometerei com meu juramento favorito.
Eu realmente gostaria que o amor fosse mais duradouro,
E que os votos não fossem tão frágeis como são,
Mas assim é, e a natureza conseguiu
Lutar sem parar até agora,—
Se encontramos ou não o que procuramos
É irrelevante, biologicamente falando.



